24/10/2024

(Autorais) O que faço e o que sou? A velhice em minha vida

 





 
Em uma de suas sempre maravilhosas e inspiradoras postagens (e, para nossa sorte, praticamente diárias), Alessander Raker Stehling, um psicanalista a quem dispenso toda minha admiração, disse em seus dois últimos parágrafos:

"Como Bertrand Russell já dizia, “Nenhum êxito é possível sem trabalho persistente, tão absorvente e difícil, e isso nos deixa pouca energia para as formas de diversão mais cansativas.” O segredo, então, é aprender a dizer não. Dizer não ao excesso de distrações, aos convites que nos tiram do caminho, às tentativas de nos levar a superficialidade. E, ao mesmo tempo, dizer sim — sim ao mergulho profundo nas coisas que realmente importam, que exigem esforço, mas que, no final, trazem um resultado verdadeiramente transformador.

Ao invés de perder horas com aquilo que te esgota, pergunte a si mesmo: O que, se eu fizer com dedicação, pode mudar minha vida? O que vale o meu tempo e a minha energia? Quando você aprender a focar no que realmente importa, a chave para alcançar algo grandioso estará em suas mãos. O flow é isso — o estado em que o seu esforço e a sua paixão se alinham, e você passa a criar algo verdadeiramente extraordinário."

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O Alessander sempre diz o que estou precisando ouvir e pensar; mais do que isso, seus textos 'abrem rodovias' na minha mente. O texto cujo trecho acabo de citar é um convite à permissão que temos

A graduação em psicologia tem sido a experiência mais transformadora de minha vida. Nesse percurso, tenho tido a oportunidade de (re)ver não apenas minha vida, mas meu próprio trabalho em filosofia, o que me permito fazer pela proximidade entre as áreas e por meus interesses e carreira no psiquismo.

Tenho (re)visto muito e tudo, e, como jamais dissociei minha carreira acadêmica de minha vida, estou sendo conduzido pelo que o Alessander chama, em sua postagem de 'estado de flow', isto é, como tudo aquilo que "acontece quando você está tão focado e imerso numa atividade que perde a noção de tempo e espaço". Esse flow, acredito com Alessander, só é possível quando 'o que faço' converge 'com quem sou'.
 
Sempre gostei muito de produzir e publicar, mas nunca fui um carreirista. Essa característica me permite mais uma vez descobrir, tanto em minha vida pessoal quanto na profissional, onde deve estar essa coincidência entre o meu esforço e minha paixão, entre o que eu sou e o que eu faço.

No meu caso, essa convergência, essa paixão, a qual merece meu esforço de corpo e alma, está nos velhos. Todo um percurso idiossincrático me permitiu encontrar o propósito de minha existência no trabalho (em todos os níveis possíveis) com os velhos, com os fenômenos da velhice e do envelhecimento.

Minha esposa Solange Almada disse, agora há pouco, que, ao longo desses 10 anos de casamento, nunca me viu tão feliz e tão repleto de vida. Ela não para de encontrar vídeos, livros e frases sobre velhos. Outras(os) amigas(os) e familiares também têm me municiado com materiais maravilhosos. Fico sempre tomado por um sentimento muito agradável quando vocês se lembram de mim e me enviam esses presentes que valem muito mais que qualquer dinheiro.

No próximo semestre, oferecerei, pelo Instituto de Filosofia da Universidade Federal de Uberlândia, uma disciplina optativa sobre filosofia do envelhecimento. Estou extremamente entusiasmado.

Nesse percurso, tenho descoberto materiais muito preciosos. Um desses é o Portal do Envelhecimento. Estou fazendo um curso muito bom sobre Centro de Convivências para idosos. Pelo Portal, estou fazendo um curso online gratuito oferecido pela Faculdade Unimed (Credenciada no MEC) e pelo Ministério Público do Trabalho sobre "Cuidadores de idosos". O professor é simplesmente o Edgar Nunes de Moraes, professor titular de Geriatria do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Minas Gerais. Ambos os cursos tangenciam questões teóricas e práticas associadas ao cuidado com os idosos com muita competência, me permitindo ver com mais clareza a velhice e o envelhecimento como fenômenos multidimensionais nos quais se encontram muitos campos de conhecimento, dentre os quais a filosofia e a psicologia. Em que pense minha afinidade com a psicanálise e com a psicologia histórico-cultural, nessa área é mais do que essencial, é imprescindível, a sensibilidade à multidisciplinaridade. 



06/10/2024

(Autorais) Eleições e o desserviço em relação à adicção

 

 

Na reta final das eleições de São Paulo, Pablo Marçal centra sua guerra eleitoreira contra Guilherme Boulos na "acusação" de teor moralizante de uso/vício em cocaína. É lastimável o desserviço que a estratégia de baixo nível de Pablo Marçal está fazendo em relação a um dos mais problemas de saúde pública, a adicção. Não fosse a cocaína, seria a maconha; não fosse a maconha, seria o álcool. Não me interessa a questão partidária: se eu estivesse interessado na questão, estaria profundamente decepcionado com o próprio Boulos, que, para não perder votos, precisa jogar o jogo dos ratos, corroborando com o preconceito contra a adicção em todos os seus esforços de mostrar que não usa cocaína, que provou maconha adolescente e que, por uma terrível dor de cabeça, ficou provado ser imune às drogas. Só faltou falar que só bebe fanta-laranja. No final das contas, ganha a psicofobia em relação à adicção. O que está em jogo, nessa baixaria, é a compreensão do vício como um problema moral, quando, antes, o problema é de saúde pública. Toda a luta empreendida pela conscientização em relação a esse importantíssimo problema de saúde mental (do qual eu mesmo sou uma vítima em recuperação) se perde em meio a essa baixeza. 
 
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Foto
Anastasia Shuraeva (Pexels)